Mulheres precisam de trabalhar mais 64 dias para ganhar o mesmo que os homens

… e ainda somam a carga invisível de casa e cuidados.

Um novo relatório do Observatório Género, Trabalho e Poder expõe uma realidade que continua profunda e estrutural no mercado de trabalho português: mesmo quando têm as mesmas qualificações, antiguidade e responsabilidades que os homens, as mulheres recebem menos.
Segundo os investigadores, esta diferença corresponde a 64 dias de trabalho adicionais por ano — mais de dois meses — para alcançar o mesmo rendimento que um homem com perfil equivalente.

O que representam estes 64 dias “a mais”

O cálculo ajustado revela um desvio salarial de 17,5%, superior às estimativas oficiais, que apontavam para 46 dias. Quando fatores como escolaridade, tipo de função, idade e experiência são alinhados, a desigualdade torna-se ainda mais evidente: não é uma questão de mérito, é estrutural.

Desigualdade no trabalho pago… e no não pago

Mas o relatório não conta toda a história.
Para além de ganharem menos pelo trabalho remunerado, as mulheres acumulam ainda a carga do trabalho doméstico e de cuidados, que continua esmagadoramente distribuído de forma desigual.

São elas que, em grande parte dos lares portugueses, asseguram a limpeza, as refeições, a gestão da casa, o acompanhamento dos filhos e o apoio diário a familiares idosos ou dependentes.
Este trabalho não remunerado, que raramente entra nas contas oficiais, representa horas adicionais de esforço, desgaste e responsabilidade — e agrava ainda mais a desigualdade económica.

Ou seja: enquanto os números mostram 64 dias de trabalho extra para igualar o salário, a realidade mostra que a jornada das mulheres é muito maior, estendendo-se para além do emprego e absorvendo-se nas tarefas que sustentam o funcionamento das famílias e da sociedade.

Consequências acumuladas ao longo da vida

A socióloga Sara Falcão Casaca destaca que esta desigualdade não explica apenas as diferenças salariais atuais, mas também as reformas mais baixas e a menor segurança financeira das mulheres ao longo da vida.
À penalização salarial soma-se a penalização familiar, que limita progressões na carreira, reduz tempo de descanso e aumenta a carga mental.

Um dia simbólico que deveria ser revisto

O estudo surge perto do Dia Nacional da Igualdade Salarial, data que marca o momento a partir do qual, simbolicamente, as mulheres deixam de “receber” em comparação com os homens.
Com os novos cálculos, essa data teria de recuar para 29 de outubro, revelando que as mulheres trabalham praticamente até ao fim do ano para alcançar a mesma remuneração.

O que precisa de acontecer

Para as investigadoras, a solução passa por políticas públicas que promovam uma partilha real das responsabilidades familiares, por transparência salarial nas empresas e por medidas que impeçam que a maternidade ou as cargas de cuidado penalizem as mulheres.

Sem esta mudança estrutural — tanto no trabalho remunerado como no trabalho invisível — a desigualdade continuará a repetir-se geração após geração.