Há artistas que fotografam o mundo. Bruna Alcântara faz o contrário: fotografa-se a si própria e depois fura a imagem com uma agulha, até a fotografia deixar de ser fria e passar a doer, a lembrar, a significar. Jornalista e artista visual, cruza fotografia, bordado e colagem para criar um trabalho onde militância e feminismo não são tema — são matéria-prima.
O gesto tem raízes fundas. Criada no interior do Paraná, aprendeu a bordar com a mãe e a avó, dois nomes de uma linhagem de mulheres que, durante séculos, foi obrigada a bordar em silêncio. Bruna pega nessa herança e vira-a do avesso: já não é prenda doméstica, é arma.
A arte como sobrevivência
A viragem aconteceu longe de casa. Foi em Portugal, a fazer mestrado, que o bordado ganhou forma e maturidade estética — e não por acaso. Bruna atravessou uma gravidez indesejada e a solidão de quem a vive do outro lado do Atlântico, sem rede de apoio.
A arte tornou-se válvula de escape. “Foi um período muito solitário e a fotografia ajudou-me na aceitação”, conta. Começou a autorretratar-se por pura necessidade de registo. Mas as imagens saíam-lhe geladas: “senti que faltava muito de mim.” Foi então que começou a intervir sobre elas com as memórias da infância — linha, agulha, o gesto herdado das mulheres da sua família. O bordado veio preencher aquilo que a fotografia sozinha não dizia.
Há aqui uma verdade que muitas reconhecerão: o corpo da mulher, sobretudo o corpo grávido, é constantemente narrado por toda a gente menos por ela própria. Autorretratar-se e bordar por cima é reclamar a autoria dessa história.
Da parede da galeria para a rua
Bruna não se ficou pelo espaço protegido das galerias. Encontrou na rua — através do lambe-lambe, a colagem urbana de cartazes — uma das suas linguagens mais potentes. A lógica é claramente política: “encontrei na rua uma das melhores maneiras de comunicar com mulheres de todas as camadas sociais.”
É uma decisão feminista antes de ser estética. A arte que fica dentro do museu fala com quem já lá entra. A arte colada num muro fala com quem passa — a mulher que apanha o autocarro, que limpa casas, que nunca pisou uma bienal. Levar o feminismo para a parede da rua é recusar que ele seja privilégio de quem tem bilhete.
Um corpo que atravessa fronteiras
O percurso confirma a força do trabalho. Depois de uma individual e duas coletivas no Festival Feminista do Porto, Bruna expôs em bienais de Curitiba, São Paulo, Manaus, Belo Horizonte, e até em Beirute e na Bienal do Cairo. Do interior do Paraná ao Egito, o mesmo fio: o corpo da mulher como território de potência e de significação, e não como objeto à espera de ser olhado.
É este o gesto que a torna referência para tantas mulheres que fazem da fotografia arte contemporânea. Bruna pega em duas tradições que o mundo insistiu em desvalorizar por serem “coisas de mulher” — o bordado doméstico e o autorretrato íntimo — e prova que, juntas, cortam fundo.
A agulha, afinal, sempre soube fazer duas coisas: costurar e furar.






