Incompetência armada: quando “não sei fazer” é só mais uma forma de não fazer

Há um truque tão antigo e tão eficaz que quase deixámos de o ver. Chama-se incompetência armada — tradução de weaponized incompetence, um termo que anda a circular nas conversas feministas e que descreve algo que reconhecerás de imediato: a capacidade de um homem dizer que “não sabe” ou “não é bom” a fazer determinada tarefa, precisamente para que sejas tu a fazê-la.

O importante é perceber isto: raramente é verdade. É estratégia. Uma forma de não fazer disfarçada de limitação inofensiva.

O truque do “ninguém faz como tu”

Repara na mecânica. “A tua comida é muito melhor.” “Ninguém dobra a roupa como tu.” “Eu se fizer, fica mal.” O elogio é a isca. Ao exaltarem a tua competência, transferem para ti a responsabilidade — e ainda ficas com a sensação de que devias estar lisonjeada.

Quando o elogio não chega, entra a segunda camada: fazer mal de propósito. Pedes que varra a sala; ele varre à volta do que está no chão, deixa os copos na mesa, não passa o pano. Quando reclamas, a culpa volta para o teu lado: “não me disseste que era para arrumar tudo.” A conclusão a que ele quer que chegues é sempre a mesma — dá menos trabalho fazeres tu.

E é exatamente esse o objetivo.

Não é só a loiça

Seria cómodo pensar que isto se limita às tarefas domésticas. Não se limita. A incompetência armada também é emocional.

É o rapaz que “precisa de espaço para se conhecer” e te deixa a gerir sozinha a relação. É o clássico “tu és maravilhosa, o problema sou eu” — que soa a humildade e é, na prática, uma forma de nunca ter de explicar nada. A manutenção afetiva das relações, o chamado trabalho invisível, cai quase sempre do mesmo lado. E a carga mental de andar a diagnosticar se o problema é ele, o teu chefe ou o teu colega é, ela própria, mais uma tarefa que te empurraram para o colo.

Do patrão ao namorado, a pergunta é sempre útil: isto é mesmo incapacidade — ou é a recusa de colaborar, bem disfarçada?

Um dicionário para lhes chamar os nomes

A incompetência armada não anda sozinha. Faz parte de uma família de comportamentos que durante demasiado tempo passaram por “normais”. Nomeá-los é o primeiro passo para os deixar de aceitar:

  • Gaslighting — manipular-te até duvidares daquilo que sabes ser verdade. Fazer-te sentir exagerada, louca, dramática, quando estás apenas a ter razão.
  • Mansplaining — explicar-te algo que dominas melhor do que ele. Ponto extra quando o assunto é a própria experiência de ser mulher.
  • Manspreading — ocupar mais espaço do que precisa. As pernas escancaradas no transporte público são a versão física de uma atitude inteira.
  • Bropriating — pegar numa ideia tua, repeti-la em voz alta e ficar com os créditos. Clássico das reuniões e do meio académico.
  • Stealthing — retirar o preservativo durante o sexo sem consentimento. Não é “partida” nem “mal-entendido”: é violência sexual, cada vez mais reconhecida como crime.
  • Body shaming — ridicularizar o corpo de alguém, de forma direta ou envenenada de “preocupação”.

Porque nomear muda tudo

Pode parecer que estamos só a inventar palavras novas para coisas antigas. É o contrário. Dar nome a um comportamento é tirá-lo do território do “é assim mesmo” e colocá-lo onde pertence: no das coisas que se podem — e devem — recusar.

Enquanto não tinham nome, estas atitudes eram problema teu: a mulher exigente, a chata, a que complica. Com nome, passam a ser o que sempre foram — pequenas violências quotidianas com um padrão bem claro.

Quantas destas já viveste esta semana? Provavelmente mais do que gostavas de admitir. E é precisamente por isso que vale a pena chamá-las pelo nome.