No tabuleiro do Menopause Monopoly, já há casas para “promoção perdida” e “preocupações financeiras”. O jogo, pelo menos, teve a coragem de escrever o que tantas mulheres ainda têm de sussurrar no trabalho: a menopausa pode mexer com o corpo, o sono, a concentração, o rendimento e a carreira. A pergunta menos divertida vem a seguir: depois de a campanha acabar, quem paga a conta?
A Aviva, seguradora britânica, criou esta versão do Monopoly com a Saatchi & Saatchi e a Hasbro, numa campanha que também envolve a OMD e o Channel 4. A edição é uma peça de comunicação, não está à venda. A campanha merece crédito por pôr o tema à vista; merece também ser lida pelo que é: uma iniciativa de marca, não uma política pública nem um serviço de saúde. A Aviva tem interesse comercial em falar de saúde e planeamento financeiro. Isso não anula a conversa — só nos lembra que uma boa campanha não substitui direitos, consultas ou medicamentos acessíveis.
Há humor no desvio do jogo. Mas há uma ironia maior: no Monopoly original, quando a jogadora cai numa casa difícil, pelo menos sabe quem gere o banco. Na vida real, uma mulher pode nem saber a que consulta recorrer, se terá de pagar tudo do bolso ou se dizer à chefia que está com sintomas vai custar-lhe uma oportunidade.
Não é “falta de jeito”: é trabalho, saúde e dinheiro
Um estudo promovido pela Médis ouviu 302 mulheres entre os 45 e os 65 anos, em setembro de 2024. Não é uma estimativa clínica da população portuguesa, mas dá voz a experiências concretas: 63% disseram que a menopausa afetou ou tinha afetado o seu dia a dia laboral; 77% nunca tinham falado do impacto com a chefia. Entre as inquiridas que responderam sobre como lidavam com o mal-estar no trabalho, 68% disseram aceitar ou disfarçar os sintomas.
As preocupações também têm preço: nesse inquérito, 47% temiam não progredir no ordenado ou não receber um aumento; 40% receavam ser despedidas ou despromovidas. São receios relatados pelas participantes, não prova de que todas tenham sido discriminadas. Mas quando tantas trabalhadoras calculam o risco de pedir ajuda, o silêncio deixa de ser uma preferência individual. Passa a ser uma condição do local de trabalho.
O mesmo relatório estima que cerca de 1,1 milhões de mulheres entre os 45 e os 64 anos estão empregadas — aproximadamente 22% da população empregada. É um indicador da dimensão etária, não significa que todas estejam na menopausa. A distinção importa: não precisamos de exagerar os números para perceber que esta conversa toca uma parte enorme da força de trabalho.
E isto não começou ontem. Em 2019, o Observador, citando dados da Secção Portuguesa de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, noticiava que os sintomas interferiam na vida profissional de quase um quarto das mulheres e que, em 5%, contribuíam para absentismo. Sete anos de avisos depois, ainda estamos a perguntar quem transforma o diagnóstico em apoio.
A investigação internacional também alerta para consequências económicas duradouras. Um estudo de 2025 do Institute for Fiscal Studies, baseado em dados populacionais da Noruega e da Suécia e em métodos quase-experimentais, encontrou que o diagnóstico de menopausa foi seguido por quebras persistentes no emprego e nos rendimentos, mais acentuadas entre mulheres com menos recursos. Não é uma estimativa para Portugal; é um sinal de que a falta de apoio pode agravar desigualdades que já existem.

A lei já prometeu. A estratégia ficou para depois.
Portugal já escreveu medidas no papel. O artigo 215.º do Orçamento do Estado para 2025 prevê consultas de menopausa nos serviços de saúde sexual e reprodutiva dos centros de saúde, um regime especial de comparticipação para hidratantes vaginais e vulvares e outras terapêuticas com evidência científica, e a uniformização das comparticipações dos medicamentos prescritos.
Depois, o artigo 185.º do Orçamento para 2026 deu ao Governo um prazo: apresentar, no primeiro semestre, uma Estratégia Nacional para os Direitos na Menopausa, com informação, formação, consultas e comparticipações. O prazo passou. Em declarações recentes ao Saúde Online, a VIDAs — Associação Portuguesa de Menopausa — afirmou que as medidas previstas nos dois Orçamentos ainda não tinham aplicação prática e voltou a alertar para a falta de consultas e de acesso comparticipado.
Há uma resposta a nascer: a ULS Santa Maria anunciou uma consulta de menopausa nos cuidados de saúde primários, com abertura em novembro de 2026. É um passo concreto e merece reconhecimento. É também uma consulta numa ULS. Uma resposta local não equivale a acesso universal, atempado e geograficamente distribuído.
A Associação para o Planeamento da Família pede precisamente consultas acessíveis em todo o país, formação para profissionais de saúde, recolha de dados e inclusão da menopausa na saúde e segurança no trabalho — com adaptações práticas como climatização, roupa adequada e espaços de descanso. Nada disto se resolve com um tabuleiro bonito. Resolve-se com metas, orçamento, serviços disponíveis e prestação de contas.
Uma campanha abre a conversa. O Estado tem de continuar a partida.
O Menopause Monopoly acerta ao mostrar que a menopausa não é apenas um conjunto de afrontamentos: pode atravessar relações, sono, confiança, trabalho e autonomia financeira. Mas há uma diferença entre reconhecer uma casa chamada “promoção perdida” e impedir que uma trabalhadora perca, de facto, salário ou lugar por falta de apoio.
O mínimo político não é inventar mais um slogan. É cumprir o que já foi aprovado: publicar a estratégia nacional, financiar consultas no SNS, tornar claras e acessíveis as comparticipações, formar profissionais e chefias, e acompanhar os resultados com dados públicos. Sem isso, a mulher continua a lançar os dados sozinha — e a banca continua a ganhar.
A campanha acaba. A menopausa não. E uma conversa só se torna progresso quando deixa de depender da boa vontade de uma marca, de uma chefia compreensiva ou da sorte de morar perto da consulta certa.
Fontes e leitura: Creative Salon, sobre a campanha Menopause Monopoly; Projeto Saúdes/Médis, inquérito sobre menopausa e trabalho (2025); Orçamento do Estado para 2025, artigo 215.º; Orçamento do Estado para 2026, artigo 185.º; Saúde Online/Lusa, posição da Associação VIDAs; ULS Santa Maria, nova consulta de menopausa; APF, carta de recomendações; Institute for Fiscal Studies, estudo sobre a penalização económica da menopausa (2025); Observador/Lusa, dados de 2019 sobre menopausa e trabalho.

