A pergunta não é só se a magreza extrema voltou à moda: quem ganha quando as mulheres aprendem, mais uma vez, a ocupar menos espaço?
O regresso do corpo extremamente magro não é apenas uma questão de vestidos, dietas ou fotografias. É também uma questão de poder. Quando a feminilidade é apresentada como delicada, jovem, frágil e permanentemente corrigível, o ideal estético aproxima-se de uma velha exigência patriarcal: que as mulheres sejam desejáveis sem serem demasiado autónomas, visíveis sem serem ameaçadoras, livres desde que continuem a vigiar-se e a punir-se.
Não quer dizer que todas as mulheres magras sejam frágeis, nem que uma forma corporal revele uma posição política. O corpo de uma mulher não é prova da sua docilidade. A questão está no significado que a cultura atribui a certos corpos — e no trabalho que exige às mulheres para os alcançar.
Magreza extrema como disciplina patriarcal
Uma reportagem da Marie Claire Brasil ouviu especialistas que relacionam a obsessão com o corpo a uma forma de vigilância e controlo social. A ideia é inquietante: quanto mais a nossa atenção fica presa a corrigir cada detalhe, menos espaço mental sobra para nos vermos como cidadãs, reivindicarmos direitos e discutirmos quem decide sobre a nossa vida.
Mas a hipótese merece ser levada a sério. Fazer dieta, contar calorias, treinar por obrigação, comparar fotografias e sentir culpa por comer pode transformar o corpo num projecto sem fim. O exercício pode ser prazer e saúde; cuidar da aparência pode ser uma escolha. O problema começa quando a escolha vem carregada de uma ameaça: se não te corrigires, serás julgada; se te esforçares demasiado, serás fútil. A mulher fica presa num teste que nunca termina.
Da cultura do corpo ao guião político
Num vídeo da conta Terapia Feminista, a ideia é condensada numa frase provocadora: corpos frágeis seriam convenientes ao patriarcado. A formulação não deve ser lida como descrição literal de mulheres magras. A força do argumento está noutro lugar: uma cultura que elogia a fragilidade feminina e desconfia da força, do apetite e da autonomia torna a docilidade mais fácil de vender como beleza.
O Nexo chama a atenção para um passo adicional: conteúdos sobre magreza e aparência podem circular em ecossistemas digitais onde a extrema-direita promove papéis de género tradicionais e discursos antifeministas. A porta de entrada pode parecer inofensiva — bem-estar, beleza, conselhos para “melhorar” — e conduzir, em alguns casos, a comunidades que tratam a independência feminina como ameaça. Isso não transforma toda a conversa sobre alimentação ou exercício em propaganda política. Obriga-nos, sim, a perguntar que ideias vêm embaladas com a promessa de um corpo “melhor”, “mais bonito” e “mais saudável”.
Também o ensaio “O Culto da Magreza Extrema e sua relação com o Machismo” lê a pressão estética como uma forma de ocupar o tempo, o dinheiro e a energia das mulheres. É um texto de opinião, não um estudo científico; ainda assim, nomeia uma experiência reconhecível: a sensação de que o corpo está sempre em dívida e de que a vida pode começar depois da próxima dieta.
O que mostram — e o que não mostram — os números em Portugal
Em Portugal, o Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 contabilizou 29.644 participações de violência doméstica, menos 1,9% do que em 2024. Entre as vítimas identificadas nas participações, 69% eram mulheres; entre as pessoas denunciadas, 78% eram homens. O Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR, usando a sua própria monitorização, registou no mesmo ano 22 femicídios por razões de género e 57 tentativas.
O que os dados confirmam é que a violência contra as mulheres continua a ter uma dimensão concreta e que as mulheres são a maioria das vítimas identificadas.
Quem fica com o espaço que nos pedem para perder?
É aqui que a discussão deixa de ser sobre gostar ou não de um tipo de corpo. Se uma mulher investe horas e dinheiro a tentar caber num ideal impossível, perde tempo que poderia usar para descansar, estudar, organizar-se, candidatar-se a um lugar de decisão ou simplesmente viver sem pedir licença ao espelho. Não há uma fórmula que permita medir esse custo em cada carreira ou em cada casa. Há, porém, uma pergunta política que não devemos deixar cair: por que motivo a liberdade feminina continua a ser acompanhada por tantas instruções sobre como parecer?
O patriarcado não precisa de ordenar que todas as mulheres sejam magras, basta condicionar, e Basta que a magreza seja vendida como uma virtude, a força como um excesso e a insatisfação como um falha individual. Quando uma mulher aprende a diminuir-se para ser aceite, não é apenas a silhueta que está em causa. É o lugar que acredita poder ocupar. E isto é grave.
Fontes: Marie Claire Brasil; Terapia Feminista, Instagram; KANDU, Substack (ensaio de opinião); Nexo; RASI 2025; UMAR, Observatório de Mulheres Assassinadas, relatório de 2025.

