As filhas do mar: mulheres no Irão pescam sem “lei”

No sul do Irão, na pequena ilha de Hengam, um grupo de mulheres está a reescrever o destino. Elas pescam — sozinhas, ao amanhecer — enquanto o resto do país ainda acredita que o mar é território masculino. Chamam‑lhes as filhas do mar.

A fotógrafa Forough Alaei retratou‑as num ensaio deslumbrante publicado na The New Yorker. As imagens são um grito de liberdade: mulheres cobertas de tecidos vibrantes, burqas com padrões coloridos que contam histórias antigas. Dizem que, há séculos, as mulheres da ilha começaram a disfarçar‑se com bigodes falsos para afastar os invasores portugueses e britânicos. Hoje, vestem‑se de cor para marcar presença.

Durante anos, estas pescadoras trabalharam sem licenças, sem direito a combustível, sem apoio — apenas com coragem. Foram proibidas de registar os seus barcos porque “a lei” dizia que certos trabalhos eram demasiado perigosos para mulheres. Ainda assim, foram. E voltaram, sempre.

Agora, lentamente, o governo começa a reconhecê‑las. Pequenas vitórias que mudam tudo. Porque o mar já não é só dos homens.

Estas mulheres lembram‑nos que o feminismo não acontece apenas em conferências nem nas redes sociais. Às vezes, começa num barco velho, ao amanhecer, quando uma mulher decide que o impossível também é dela.