Lingerie depois dos 60: o desejo que o mercado fingiu não existir
Há uma coleção de lingerie pensada para mulheres que passaram dos 60. Escrito assim, parece uma notícia pequena. Não é. É a confirmação, em cetim e renda, de uma coisa que já sabíamos e que a indústria passou décadas a fingir que não sabia: as mulheres não deixam de ter corpo, desejo e vaidade no dia em que sopram a sexagésima vela.
A pergunta que fica não é “porquê agora?”. É “porque é que demorou tanto?”.
Onde é que elas estiveram este tempo todo?
Se abrires qualquer campanha de roupa interior dos últimos trinta anos, vais encontrar mais ou menos o mesmo: peles sem poros, ventres sem história, mulheres que parecem ter congelado algures entre os 22 e os 34. A partir daí, o vazio. A mulher madura só voltava a aparecer na publicidade para vender cremes anti-idade, protetores de incontinência ou seguros de saúde — nunca para vender desejo.
O recado era claro, ainda que ninguém o dissesse em voz alta: a sensualidade tinha data de validade. Depois dos 50, dos 60, esperava-se que a mulher se recolhesse discretamente, vestisse tons neutros e parasse de incomodar toda a gente com a ideia perturbadora de que ainda se olhava ao espelho e gostava do que via.
A esse silêncio dá-se um nome: invisibilização. E poucos grupos foram tão sistematicamente apagados da cultura visual como as mulheres depois de uma certa idade.
O corpo depois dos 60 não pede desculpa
Aqui está o que a maioria das marcas nunca percebeu, ou fingiu não perceber: um corpo de 60 anos é um corpo que viveu. Amamentou, ou não. Pariu, ou não. Ganhou peso, perdeu peso, ganhou de novo. Atravessou a menopausa, cirurgias, lutos, prazeres. Tem cicatrizes que são mapas.
Nada disto o torna menos merecedor de renda, de seda, de um conjunto que faça a dona sentir-se poderosa às sete da manhã de uma terça-feira qualquer.
Uma coleção de lingerie desenhada verdadeiramente para este corpo — e não apenas empurrada para ele — muda pequenas coisas que valem tudo. Cós que não marcam. Tecidos que respeitam a pele mais fina e mais seca da maturidade. Soutiens que sustentam sem esmagar. Modelagens pensadas para corpos reais e não para o corpo imaginário de sempre. É engenharia ao serviço do prazer, não da correção.
Uma coleção — e o que ela revela sobre o mercado
Convém não nos deixarmos levar pela emoção. Uma marca a lançar lingerie para os 60+ não é, por si só, um ato de justiça feminista. É, muitas vezes, um ato de contabilidade.
As mulheres com mais de 60 anos são um dos segmentos de consumo que mais cresce no mundo. Têm autonomia financeira, gosto formado e uma paciência cada vez menor para serem tratadas como invisíveis. Ignorá-las deixou de ser cómodo para passar a ser mau negócio.
E tudo bem. Que o mercado descubra estas mulheres por interesse próprio não anula o valor de finalmente as ver representadas. Só nos obriga a manter uma coisa: espírito crítico. Uma coisa é uma coleção pensada com estas mulheres — ouvindo-as, vestindo-as, fotografando-as como são. Outra, bem diferente, é pegar nos modelos de sempre, mudar duas medidas e colar por cima a palavra “inclusão”.
A diferença mede-se numa pergunta simples: quem está na fotografia?
Sensualidade não é um favor que se faz a mais ninguém
Há um argumento gasto que costuma aparecer nestas conversas: “mas quem é que vai ver?”. Como se a lingerie só fizesse sentido perante os olhos de outra pessoa. Como se o corpo maduro só recuperasse o direito à seda mediante a existência de um espetador — de preferência um homem — disposto a validá-lo.
Não é para isso.
Vestir uma peça bonita por baixo da roupa de todos os dias é, antes de tudo, um pacto contigo própria. É lembrares-te de que o teu corpo é teu, de que continua a merecer cuidado e desejo, e de que esse desejo não precisa da aprovação de ninguém para ser legítimo. Aos 20, aos 45, aos 68. A idade muda o corpo. Não lhe retira o direito ao prazer.
O que exigimos das marcas — e o que celebramos
Na Máfia Pipi não aplaudimos por menos. Por isso, aqui fica o que separa uma coleção genuína de mais uma operação de marketing:
- Modelos reais. Mulheres com a idade que a coleção diz servir, a mostrar a cara e o corpo. Sem retoques que apaguem exatamente aquilo que se diz querer celebrar.
- Conforto sem paternalismo. Peças confortáveis não têm de ser feias nem “de senhora”. Podem ser confortáveis e deslumbrantes.
- Linguagem que não pede desculpa. Nada de “ainda pode usar” ou “apesar da idade”. A idade não é um “apesar de”.
- Preço honesto. Inclusão que custa o dobro é exclusão com outro nome.
Quando uma marca acerta nisto, merece ser nomeada, elogiada e comprada. Quando falha, também merece ser nomeada — só que ao contrário.
O desejo não tem prazo de validade
Uma coleção de lingerie para mulheres depois dos 60 não é uma concessão. É uma correção — tardia — de uma injustiça que durou demasiado tempo. As mulheres maduras nunca deixaram de ter corpo, desejo e vontade de se sentirem bonitas. O que faltava era o mundo lá fora ter a decência de o admitir.
Que continuem a chegar coleções assim. E que a próxima já não seja notícia — mas normalidade.
Onde procurar: marcas a conhecer
Não faltam marcas grandes com lingerie bonita — falta é encontrarem-nas a olhar de frente para as mulheres maduras. Estas são algumas que fazem melhor do que a média, seja por posicionamento, por conforto ou por modelagem pensada para corpos reais.
Posicionadas claramente para o público mais maduro:
- Helena Schargel — marca brasileira que faz do óbvio uma bandeira: coloca mulheres maduras, incluindo depois dos 60, no centro das suas coleções e campanhas, sem as tratar como exceção.
- Miss Mary of Sweden — talvez a mais explícita a desenhar para mulheres maduras e de corpo mais cheio, com foco total em conforto e sustentação.
- Damart — histórico de vestir gerações mais velhas; lingerie e roupa interior com prioridade ao conforto.
Referências em conforto e modelagem madura (não exclusivas dos 60+, mas acertam):
- Anita — especialista em sustentação, soutiens de conforto e linhas pós-cirúrgicas; forte presença na Europa.
- Chantelle — casa francesa com tamanhos de copa alargados e uma elegância que não trata a maturidade como problema.
- Triumph e a irmã Sloggi — clássicos do conforto que envelhecem bem com quem os usa.
Made in Portugal:
- Impetus — marca portuguesa de roupa interior; não é 60+ por definição, mas é casa e vale a pena apoiar produção nacional.
Se conheces uma marca, portuguesa ou não, que esteja a fazer isto como deve ser — a mostrar mulheres reais desta idade, sem paternalismo e a preço honesto —, escreve-nos. A Máfia Pipi quer nomeá-las.




